24 abril 2017

Entrevista do Presidente ao Site Azores News

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Estreitar os laços entre o Brasil e o arquipélago açoriano

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Num dos bairros mais emblemáticos do Rio de Janeiro, Tijuca, Zona Norte da cidade, está localizada uma verdadeira embaixada açoriana. Com centenas de metros quadrados de metragem e uma estrutura de saltar às vistas, a Casa dos Açores do Rio é ponto de encontro de histórias, de recordações e de muitos eventos que prometem estreitar os laços cada vez mais fortes entre o Brasil e o arquipélago açoriano.

A história da fundação da Casa daria, por si só, um filme. Em 17 de julho de 1952, um grupo de 26 pessoas fundou a Casa dos Açores no Rio, sob o incentivo de Vitorino Nemésio, escritor e intelectual de origem açoriana. Em virtude da sua iniciativa, Vitorino assumiu o posto de presidente de honra da Casa. A reunião que deu o pontapé inicial nessa história de sucesso, que já soma 65 anos, aconteceu no então Centro Trasmontano (atualmente Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro), tradicional casa portuguesa estabelecida também na Tijuca, ao lado de onde está hoje a casa açoriana. Para convencer outros portugueses sobre a importância da criação de uma entidade açoriana no Rio, Vitorino discursou sobre “o encanto das Ilhas e sobre o sentimento de solidariedade que deveria unir o povo açoriano”. Os seus argumentos resultaram e o seu sonho tornou-se realidade: criar uma casa regional que “congregasse os açorianos e as suas práticas culturais”.

A fundação da sede só aconteceu com a ajuda de uma série de doações e de festas. Após leilão, a diretoria da Casa dos Açores adquiriu a tão sonhada sede, apenas quatro meses após a fundação da entidade. Nesse período, as festas da Casa aconteciam na casa trasmontana, até que as reformas nas novas instalações fossem concluídas. A inauguração da sede própria da Casa dos Açores ocorreu em menos de dois anos depois da sua fundação, em 24 de Abril de 1954. Após uma grande reforma, o Salão Nobre foi baptizado “Vitorino Nemésio”.

Trabalho de manutenção da cultura açoriana

Nos corredores da associação açoriana, que conta hoje com cerca de 300 sócios ativos, é possível embarcar numa viagem saudosista. A cada detalhe da decoração, surge uma lembrança, uma homenagem aos Açores. Sem bairrismos, todas as ilhas estão representadas no local. E os compatriotas do continente são também bem-vindos e marcam presença como visitantes assíduos. O amor por Portugal, independente das questões históricas ou geográficas, envolve a todos no compromisso de não deixar a cultura portuguesa, neste caso a açoriana, morrer ou ficar esquecida.

Para levar esse trabalho adiante, a Casa dos Açores do Rio promove diversos eventos ligados à cultura das ilhas. As principais festividades são anuais e de cunho religioso, como a festa do Divino Espírito Santo, entre maio e junho, e que acontece desde o início da fundação da Casa. Na década de 1980, foi incorporada no calendário de eventos a festa de Senhor Santo Cristo dos Milagres, em homenagem à ilha de São Miguel. “São esses os pontos altos das nossas manifestações”, afirma Fernando Fagundes, presidente da Casa dos Açores do Rio de Janeiro.

No desporto, recentemente a Casa foi também alvo das atenções do público e das autoridades portuguesas em virtude de um torneio de futsal, realizado nas suas instalações, e que foi promovido e apoiado pelo Governo Regional dos Açores em comemoração dos 40 anos da autonomia do arquipélago. A “Taça da Autonomia” contou com a participação de mais de três dezenas de atletas representantes das Casas dos Açores do Rio, do Rio Grande do Sul, de São Paulo e de Santa Catarina, no Brasil, além da Casa dos Açores do Uruguai. No jogo final, a Casa dos Açores carioca defrontou a sua homóloga de Santa Catarina, sagrando-se campeã com uma vitória por 3-2. No futuro, a ideia da organização é promover um torneio em que possam estar presentes atletas de instituições açorianas dos EUA e do Canadá.

Paulo Teves, ​diretor Regional das Comunidades do Governo Regional dos Açores, foi o responsável por entregar o troféu à Casa dos Açores do Rio. Nessa oportunidade, o diretor destacou o “enorme simbolismo de celebrar 40 anos de Autonomia açoriana fora do espaço do arquipélago, o que simboliza e reforça a ideia de que, onde houver um açoriano, um açordescendente, há, sem dúvida, Açores”. Paulo Teves salientou ainda que a realização da competição significou a “aposta do Executivo açoriano na promoção de uma política de maior aproximação aos Açores junto deste público específico”.

O evento contou ainda com a presença do então cônsul-geral de Portugal no Rio, Nuno Bello, e de Henrique Wruck, descendente de pai açoriano da ilha Terceira, que foi eleito, em 2014, o Melhor Jogador do Mundo Futebol de 7 e que, atualmente, representa o Club de Regatas Vasco da Gama. Durante o torneio foram homenageados três jogadores da primeira equipa de futsal da Casa dos Açores do Rio de 1958, todos emigrantes oriundos da ilha Terceira.

E não é somente o futsal que é capaz de reunir as pessoas em torno da cultura açoriana. A Casa realiza almoços mensais e convívios, além de festas tradicionais, onde não falta boa gastronomia e muita música e dança. Do ginásio para o salão nobre, um dos momentos mais aguardados pelos frequentadores da Casa é o “Encontro Cultural Açoriano”, que aborda temas ligados à cultura dos Açores, com a presença de palestrantes e de atividades que valorizam as tradições açorianas.
“É um grande projeto da Casa todo o mês de Outubro. Já estamos a trabalhar sobre o tema deste ano, que ainda não pode ser divulgado. Agora estamos formatando o evento. Este é um projeto sempre novo e é uma forma de mostrar os Açores”, sublinha Fernando.

Além das vertentes religiosa, desportiva, social e cultural, a Casa promove também eventos em que o folclore das ilhas segue bem representado. Exemplo disso é o Festival Internacional de Folclore, em novembro. Já participaram ranchos da Escócia, Alemanha, Itália, Açores e do continente. A Casa é também convidada para participar em eventos promovidos por outras instituições.

E, no meio de toda essa festa, a estrela das apresentações é o rancho Padre Tomás Borba, motivo de orgulho para a Casa dos Açores do Rio. Com mais de 60 anos de fundação, o rancho folclórico açoriano conta com 35 componentes e tem ensaios semanais. No elenco estão açordescendentes, portugueses do continente e, também, brasileiros, todos interessados nas danças e cantares típicos das ilhas.

Atualmente, os responsáveis pelo grupo estão a investir na transmissão da cultura açoriana aos mais novos, aos filhos de açordescendentes. “Está surgindo uma nova geração. Estamos trabalhando algumas crianças da família açoriana para atuarem conosco. Não é um grupo mirim. O objetivo é que eles façam parte do nosso grupo no futuro e nos ajudem a manter o rancho. Queremos que eles conheçam e tomem gosto pelas nossas tradições, pelo nosso folclore. Estamos a trazer essa geração nova, essas crianças. Queremos que elas convivam aqui na Casa para que, cada vez mais, se sintam em local familiar. Aqui é a terra dos seus avós e é onde os seus pais vivem”, comenta Fernando.

E o folclore é um grande celeiro de memórias para a Casa. Uma das conquistas de maior orgulho da entidade foi o deslocamento do seu grupo aos Açores, em 2012, pela primeira vez. O rancho folclórico visitou as ilhas do Pico e Terceira.

“A maioria dos componentes é açordescendente e quase todos são descentes de açorianos da ilha Terceira. Muitos dançarinos têm parentes por lá. Foi uma emoção muito grande ir à ilha Terceira, pois em todos esses anos de fundação foi a única vez que conseguimos ir aos Açores. Nunca havíamos tido essa oportunidade. Existem muitas dificuldades de deslocamento, pois a viagem é muito longa. Essa viagem foi um marco importante para a Casa, apesar de ter sido um trabalho bastante difícil”, recorda Fernando.

Saúde financeira em alta

A sede da entidade conta com uma estrutura monumental. O local é constituído por um enorme casarão, ampliado e reformado ao longo dos anos, onde é possível encontrar dois grandes salões (nobre e social) para eventos, ginásio polidesportivo, piscina descoberta, lanchonete, alojamentos para 32 pessoas, entre outros espaços. Para manter tudo isso a funcionar, além de serem necessários gastos com recursos humanos, a diretoria da Casa necessita de uma verba de cerca de R$ 25 mil (algo em torno de 7.500 euros) mensais. Apesar da quantia, nas palavras do presidente, “a saúde financeira da Casa está boa”.

“A nossa saúde financeira é boa, estável, cumprimos com os nossos compromissos. Em termos financeiros estamos bem. Existem casas portuguesas no Rio com problemas, mas temos mantido as nossas contas em dia. Estamos tranquilos, apesar de sermos uma das maiores estrutura do Rio”, avalia o presidente.

Mesmo com a presença de centenas de sócios, não é o pagamento das mensalidades que ajuda nos gastos da entidade. Para aumentar a renda, são alugados os espaços da Casa, como os salões para festas e o ginásio para eventos desportivos e diversos. Além disso, a instituição conta com ajuda financeira por meio de protocolo com o Governo Regional dos Açores, a exemplo do que acontece com as demais Casas dos Açores espalhadas pelo mundo.

De olhos postos em todas as oportunidades, a instituição firma ainda parcerias com entidades particulares que utilizam as instalações da Casa para realizarem aulas de voleibol, de lutas marciais e de ballet infantil.

Embora a situação financeira esteja estabilizada, Fernando defende que é preciso manter as tradições açorianas, numa luta constante pela manutenção da instituição e no engajamento da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro. Esse é talvez o principal e maior desafio da entidade.

“Temos que continuar divulgando a nossa região, cultura e folclore. Estamos presentes no Rio e temos o nosso local de convívio, onde mostramos as tradições açorianas. Basicamente, o Brasil está em crise financeira, econômica e política. Existem muitas incertezas no País. E manter uma associação deste nível, desta magnitude, não é fácil”, reforça Fernando.

Desde 2013, Fernando Fagundes acumula o desafio diário de presidir os destinos de uma das culturas portuguesas mais emblemáticas e distintas de Portugal. Afinal, a ilha dos Açores repousa esplêndida no meio do Atlântico, e atrai, a cada dia, mais e mais amantes da sua cultura, gastronomia, ecossistema e paisagens. Fernando não disfarça a satisfação em atuar na liderança da instituição.

“Representar a Casa dos Açores do Rio é um orgulho, até mesmo pela singularidade da instituição. Temos várias casas luso-brasileiras no Rio que representam várias regiões de Portugal continental. O açoriano está espalhado pelo mundo. Temos orgulho das ilhas. Somos açorianos. Sou filho, neto e bisneto de açorianos. Sinto-me como se tivesse nascido lá. Aqui tentamos marcar essa posição. Somos açorianos. Queremos marcar isso”, explica Fernando, que recorda o empenho do seu avô em ajudar durante a fundação da Casa.

“Olho esta Casa com amor e carinho. Nasci aqui. Meu avô foi um dos sócios-fundadores. Faço parte do rancho folclórico por causa do meu pai que era açoriano, senhor Anselmo Martins Fagundes. Ele tocava violino desde a fundação e nunca deixou o grupo. Morreu sendo componente. Nunca chegou a ser presidente da Casa, mas foi diretor por diversos mandatos”, comenta Fernando.

Apesar das boas recordações, o presidente da Casa, que está no terceiro mandato, acredita que chegou o momento de renovação no quadro diretivo. Após duas reeleições, Fernando pretende deixar o cargo em 2018, mesmo que não seja de forma definitiva.

“Não espero fazer parte do próximo mandato, pois acho que deve haver renovação. Não acho positivo ter presidentes que ficam muito tempo no cargo. Quero continuar na Casa, trabalhando, mas esse é o meu último mandato, por enquanto. Posso repensar, mas deve haver renovação. Temos pessoas novas que podem e que têm possibilidade de vir a assumir a presidência da Casa. Mais para frente posso voltar a ser presidente, mas não quero que pareça que estou perpetuado no cargo”, explica Fernando.

Por fim, este responsável deixa uma mensagem para aqueles que ainda não conhecem a Casa dos Açores do Rio.“A Casa é definitivamente a décima ilha do arquipélago açoriano. Está sempre aberta. Quem a visitar será bem recebido. Gostamos de receber e de acolher”, finaliza Fernando.
O presidente vai estar presente de 12 a 17 de Setembro, no encontro do Conselho Mundial das Casas dos Açores, em Toronto, Canadá. Os presidentes de todas as Casas dos Açores no mundo reúnem-se anualmente numa cidade sede para discutirem os desafios atuais, os projetos em andamento, além de haver espaço também para troca de experiências.

Fonte: AzoresNews.org